Cachorros, barcos e aniversários

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À medida que o tempo vai passando a gente vai se sentindo mais “da terra”. Não que a gente perca as raízes, mas tudo vai ficando mais confortável, mais rotineiro. Tipo: ir à cidade, pagar contas, interagir com as pessoas, antes era um pouco complicado, desastrado, e agora vai ficando mais natural. A gente aos poucos passa a entender algumas palavras do “inglês” do povo local, o que é uma grande vitória. Eles aqui falam uma coisa aí que dizem ser inglês, mas pelamorde… né não, viu?! Com exceção do povo britânico, americano ou descendentes destes, a gente não entendia muita coisa no começo. Mas lembro que foi assim também quando chegamos no interior da Irlanda.

Muito e nada aconteceu desde a última vez que escrevi. NADA porque a vida aqui não é badaladíssima como nas grandes cidades. Às vezes fico impressionada como uma ilha assim sobrevive. MUITO porque tem barcos indo e vindo e, como acontece todos os anos (graças a Deus), Felipe e eu fizemos aniversário. Pois então bora falar sobre isso.

(Mais) Algumas curiosidades sobre Antígua:
1. O povo daqui é devagar. Calma, não digo que eles são preguiçosos; é só o clima que é muito quente e você vê as pessoas andando e fazendo as coisas em câmera lenta pra evitar desidratação. Eu que sou toda ligeirinha demorei a captar o ritmo da vida daqui. Agora se não quero chegar completamente suada, ando no compasso do povo antiguano.
2. Nunca vi moto aqui. Sim, tem muito carro porque (de novo por conta do clima) não dá pra andar pra todo canto. Dia desses fui atravessar a rua e o trânsito estava parado, daí me veio aquele sentimento de “cuidado com as motos”. Parei pra pensar e constatei que nunca vi moto por aqui. Em compensação tem quadriciclos everywhere.
3. Só tem 1 supermercado grande (como quase todos de Fortaleza, ou como um Tesco na Irlanda). O nome dele é Epicurean e chega quase a ser uma atração turística. Vou nem mentir que adoro ir lá por conta do ar condicionado.
4. O aeroporto daqui foi construído por uma empresa brasileira. “Googla” aí, porque eu não vou fazer propaganda dessa aí. Ah, o aeroporto é outro lugar com ar condicionado bacana pra fugir do calor caribenho (já viram que eu só penso nisso, né?!).
5. Aqui não tem cobra. É o que dizem. Tipo na Irlanda. São Patrício passou por aqui também e expulsou as bichinhas, só pode.
6. Carnaval aqui é em agosto. Não me perguntem por quê. Nem de Carnaval eu gosto.

Acho que até agora a nossa maior aventura foi a que vou contar a seguir. Vínhamos voltando de English Harbour uma noite quando vimos um carro parando para algo que cruzava a estrada. Eram filhotinhos de cachorro. Quase chorei com a cena e queria colocá-los dentro do carro na mesma hora, mas como não sou a dona da casa onde moramos, tive que primeiro consultá-la antes de fazer isso. Tudo ok – ela é associada a um daqueles grupos que resgatam cães e gatos. Voltamos lá pra pegar os bichinhos, nem sabia direito quantos eram. Encontramos dois à beira da estrada, tentando achar abrigo perto de um cano de esgoto. Nossa, que dó! Levamos os dois pra casa, uma fêmea e um macho, batizados pela Shayne de Soot (Fuligem) e Bellie, que pra gente virou Bellinha, mesmo. Vacinamos, vermifugamos e espalhamos cartazes pela cidade pra ver se alguém adotava. Ontem o Soot foi pra casa da nova família; Bellinha ainda está aqui com a gente. Digo que foi uma grande aventura porque cachorro, cês sabem, né?! Nunca é uma peça decorativa numa casa – traz alegria e tristeza, amor e ódio. Uma lindeza brincar com eles, tirar fotos e fazer vídeos. Uma tristeza acordar com a casa toda cagada e os sapatos inutilizados. Mas enfim, amor. Amamos muito os bichinhos e, apesar da saudade do Soot, continuamos aqui na nossa missão de achar um novo lar pra Bellinha (estamos exportando, viu?! Manda um inbox se quiser adotar essa pestinha!).

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Daí veio o tão esperado Boat Show. Barcos e iates do mundo todo atracaram nas três docas daqui. Foi muito interessante ver gente de todo canto, bêbados alegres, gente de bem e com histórias interessantes. Ainda escrevo um livro sobre a vida desse povo que a gente conhece nas nossas andanças. Tem o cara que há 12 anos viaja sozinho de barco pelo mundo todo, tem o cara que se aposentou por invalidez e, ao invés de ficar em casa assistindo TV foi viajar por aí, tem a tenista que na temporada vem tocar numa banda daqui…e por aí vai. Sem dúvida o melhor dos lugares não são os lugares em si, mas as pessoas que fazem os lugares. Esqueci de explicar: no Boat Show os barcos ficam abertos para que esse pessoal que lida com o aluguel deles possa ver por dentro, anunciar, fazer catálogo, essas coisas…

Aí fizemos aniversário – primeiro o Felipe, depois eu. Gente, aniversário fora de casa, longe dos amadinhos, nunca é a mesma coisa. Mas a gente faz o que pode: tenta ser especialmente companheiro um do outro e faz o que dá prazer (come besteira, explora a ilha) e termina o dia com parabéns e bolo, ainda que só com a Shayne pra acompanhar a gente.

Daí tem o Natal chegando e nem sinal dos órgão públicos e praças se enfeitarem pra ocasião. O máximo que vimos foi essa árvore de Natal no aeroporto. Uhu.

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Só que da semana passada pra cá o próprio povo começou a enfeitar as casas, e quando falo de enfeitar é ENFEITAR. Pasmem comigo:

Por enquanto é só. Foram quase dois meses em alguns parágrafos. Continuamos loucos, unidos e felizes. “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Filipenses 4:12,13)

 

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O Caribe e a grama do vizinho

Oi, gente!

No último dia 25 completamos um mês aqui em Antigua, então já dá pra dizer que estamos melhor adaptados a tudo e todos. O clima melhorou – está chovendo mais e esfriou um pouco (até a temperatura do mar, antes morna, ficou mais fria, mas não menos agradável).

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Estamos trabalhando com property management (não sei o termo correto em português; traduzindo ao pé da letra ficou estranho…). Envolve aluguel de casa pro verão, incluindo site, AirBnB, telefonemas e emails, monitorar limpeza, jardinagem, piscina, compras, entre outras coisas que vão aparecendo. Com isso a gente entra no esquema de hospitalidade da ilha para a alta estação.

A alta estação aqui, que não é nem verão, é quando os navios/iates/barcos atracam na ilha para regatas e outros eventos. Dizem que as pessoas mais ricas do mundo trazem suas embarcações pra esta região a partir de novembro para curtir o mar e as festas aqui. Então a ilha sobrevive basicamente disso – dos meses de alta estação.

Nosso trabalho não ocupa todo o nosso tempo, então temos espaço pra explorar a ilha, conhecer pessoas e curtir a praia no fim do dia. A ilha não é muito grande, nem muito urbanizada. Não tem um shopping center ou um só lugar onde você possa encontrar de tudo. Quer comprar uma lâmpada? Tem que ir num certo lugar. Cadernos? Do outro lado da cidade. E assim vai… Mas é divertido ver a forma como cada país se organiza (ou se desorganiza) e como as pessoas lidam com isso.

Estamos bem, felizes e saudáveis. Dia desses levei uma picada de escorpião e, por ignorância, pensei que ia morrer. Felipe também pensou. Eu mal conseguia andar (foi no pé, esse trem) e ele gritava repetidamente “bora, Fabiana!” pra gente ir ao médico. Deu tanta chinelada no bicho que mais parecia um escorpião de papel. Enfim, fomos ao médico só pra passar a vergonha de, logo na porta, ele nos dizer que é que nem uma picada de abelha. Ok. Já conhecemos pessoas, fizemos amizades que nos renderam convites para lugares onde nunca imaginaríamos (nem arcaríamo$$$) ir. Veio o Halloween e a gente morreu de rir junto com o povo que trabalha em iates, tudo num bar holandês da marina daqui. Estrangeiro que veio e decidiu ficar é algo que não falta por aqui.

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As pessoas têm nos perguntado como fazemos pra viajar, pra conhecer lugares bonitos, pra ter “essa vida”… Gente, sinceramente não sei dar dicas de como viver uma vida assim (for whatever that means). Eu falo e as pessoas pensam que tou brincando ou diminuindo a nossa experiência, mas vida é vida em qualquer canto. Primeiro porque a gente gosta, sim, de viajar, mas o lance é que na nossa cabeça não existe muita fronteira. Não estamos gastando nosso dinheiro em viagens; estamos ganhando dinheiro nos lugares pra onde viajamos. Foi um exercício de desprendimento imenso quando deixamos o Brasil e tivemos que vender tudo, nos despedir das pessoas que amamos, da terra que conhecemos. Agora ficou um pouco mais fácil porque nossa vida (material) cabe em algumas malas. Segundo porque, quando você passa da fase de turista e adquire uma certa rotina, vira vida normal. Foi assim na Irlanda; é assim no Caribe.

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Não incitamos ninguém a “largar tudo e viajar” porque não foi isso que a gente fez. Aconteceu e Deus tem nos dado bases seguras, respaldo e discernimento pra dar cada passo. Então, por mais que “a grama do vizinho pareça mais verde”, queria lembrá-los que 1. estamos trabalhando (com certa folga, sim, mas talvez não ganhando tanto dinheiro quanto você que rala mais!); 2. aqui é um paraíso, mas com seus problemas (calor, mosquitos, subdesenvolvimento); 3. o desprendimento é um exercício diário e a saudade dos amados não faz parte dele (pra ela não tem cura); 4. quer “essa vida”? Começa procurando oportunidades de trabalho fora da caixa do país. Vai que aparece alguma coisa legal e você tem a oportunidade de passar um tempo fora! Uma coisa eu digo sem gaguejar: estamos amadurecendo MUITO.

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Obs.: Escrito e “formatado” num iPad. Por isso, perdão pela falta de formatação. Aceito aulas grátis.