“Mande notícias do mundo de lá…”

Estamos às vésperas de receber amigos aqui, tirar uns dias de folga, então decidi escrever logo o que tem acontecido por aqui antes de contar todo esse movimento.

As últimas semanas têm sido de muito trabalho (tell me something new…). Quando se cuida de gente idosa qualquer mudança pode indicar alguma coisa mais séria, então eles têm que ser mantidos sob supervisão atenciosa. No último mês tudo indica que nosso “velhinho” teve um (outro) pequeno AVC. Ele amanheceu com uns movimentos involuntários no lado esquerdo e o rosto um pouco mudado. Chamamos os médicos aqui, que observaram e medicaram; nos primeiros dias ele estava bem inquieto e impaciente com a perna que mexia sozinha. No entanto, o cérebro do ser humano é uma coisa mesmo impressionante: ele começou a apresentar umas mudanças também de comportamento. Como ele tem autismo e demência, ele geralmente ficava “ausente” e era rabugento quando a gente tentava interagir com ele. Agora parece uma nova pessoa: sorri, interage, chama pra brincar, quer atenção o tempo inteiro e pede carinho. Uma grande lição pra gente saber que até quando acontece uma coisa ruim dá pra tirar algo de bom. Estamos ainda mais apaixonados por ele.

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No mais, a primavera chegou! As folhas resolveram brotar e logo vieram as flores. Está tudo colorido em Duffcarrig e na Irlanda. Já dá pra colocar umas roupas mais leves, sentar na grama e tomar sol. Parece até que todo mundo fica mais feliz quando o “calor” finalmente chega. A gente aproveita pra passear mais. 🙂

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Muita gente = muitas celebrações. Aniversários ou festas de despedida. Isso é outra coisa que a gente aprende aqui: a conhecer gente nova, recém chegada; e a dizer tchau quando é tempo de eles voltarem pra casa. No começo isso era bem difícil, especialmente pra mim, mas com o tempo a gente vai percebendo que é só a vida que segue e que a amizade continua.

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Cenas dos próximos capítulos: o Tim (aqueeeeele meu amigo alemão que foi padrinho no nosso casamento!) chega amanhã pra passar uma semana com a gente. Depois vem o Daniel (nosso gordinho do Brasil). Aí mando notícias. Até lá, abração a todos e fiquem com Deus.

A Bea e outras histórias…

A Bea…

Falei no outro post que a Bea era outro assunto, né?! Então aqui vai.

A Bea acompanhava meu blog quando vim pra Irlanda pela primeira vez. A gente nem se conhecia e só Deus sabia o que a gente ainda ia viver. Daí um tempo depois que eu já tinha voltado ao Brasil ela me mandou uma mensagem no Facebook perguntando se eu queria ser amiga dela. Na verdade ela criou coragem pra fazer isso porque não foi uma coisa normal nem pra mim nem pra ela. Mas algo me dizia que esse negócio ia dar certo. Resumo da história: esta pessoa é minha madrinha de casamento.

Quando Felipe e eu finalmente decidimos vender tudo e vir pra cá, a Bea já estava praticamente de passagem comprada para vir também; enquanto nós viríamos em março pra Duffcarrig, ela só viria em setembro pra Ballymoney (comunidade vizinha à nossa). Pra quem mora longe e isolado a companhia de uma amiga-madrinha que nem essa é coisa enviada por Deus. A gente ficou contando os dias pra Bea chegar. Daí ela chegou. E a aventura que já estava legal ficou melhor ainda.

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As coisas não eram bem como ela imaginava lá na outra comunidade, então ela decidiu se mudar pra cá. A verdade é que ela não aguentou ficar longe da gente nem 1km (essa é a distância entre as duas comunidades). E cá estamos nós: uma dupla de três, um trio de dois, já que nós dois somos um e tem a Bea… enfim, não dá pra explicar e nem sei como era a vida antes dela aqui. Na hora que o bicho pega a gente corre um pra casa do outro e dá tudo certo. Deus, essa tal de amizade é a melhor invenção de todos os tempos!

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                                                       (A gente fingindo que é meiga)

Acaba que a Bea assumiu praticamente as mesmas responsabilidades que a gente, só que em outra casa. Obviamente pedimos o mesmo day off. Ah, day off… nunca expliquei. Aqui a gente tem uma folga oficial por semana (fale-me mais sobre Europa ostentação e vida fácil na Irlanda… nunca vi!). Sim, a gente tem mais férias que aí no Brasil e também tem os weekends off volta e meia, mas… a vida aqui é intensa, puxada, mas divertida.

O Day Off…

Falando em day off, esse povo que tem mania de viajar nunca se aquieta. Acaba que, mesmo tendo um só dia de folga, a gente revira essa Irlanda o quanto pode. Dia desses saímos pra tomar uma sopa numa cidade, comemos sobremesa em outra e, já que estávamos a 40km de outra capital, lá fomos nós rumo a Kilkenny.

Depois era só uma ida rápida a Dublin; acabamos rodando pela cidade e indo comer cachorro quente na casa do Napô e do Henrique, voltando pra casa só depois das dez. E trabalhando no dia seguinte.

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Nosso gueto aqui: Bea, Napô, Henrique e o Bruno – nossa mais recente aquisição 🙂

A Páscoa…

Daí veio a Páscoa. Gente. A Páscoa no Camphill é um episódio à parte. Eu já passei por isso na vez passada em que estive no Camphill e também no ano passado. Agora fiquei experiente e posso falar. Já estava acostumada a ouvir falar da morte e ressurreição de Cristo na igreja e ter que lidar com a mistura disso com o coelhinho da páscoa e os ovos de chocolate no resto do mundo. Aqui tem o adicional da interferência cósmica, com uma cor diferente pra cada dia da semana. Respeito a filosofia, mas é muita informação e prefiro ficar só com Jesus Cristo, mesmo. De toda forma fomos ver o amanhecer do domingo de Páscoa na praia, tivemos um café da manhã todos juntos, decoramos a casa e fizemos “caça ao ovo” pras nossas “crianças”.

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Por hoje é só. Feliz Páscoa pra todo mundo!

1 ano de Irlanda! (lembrete: isso não é um blog de viagens)

Antes de começar a escrever sobre 1 ano na Irlanda, quero primeiro deixar claro que este não é mais um daqueles blogs de CASAL QUE LARGOU TUDO PARA SE AVENTURAR PELO MUNDO. Não, não é. E sim, largamos tudo para vir para o outro lado do mundo, mas a intenção deste blog é mandar notícias para os amadinhos que ficaram no Brasil ou que se espalham por outros cantos desse mundão de meu Deus.

Pois bem. Continuemos. Nessa semana completamos 1 ano aqui na Irlanda. Parece que cada ano que passamos longe da nossa zona de conforto vale por dez. É a impressão que dá: que estamos aqui há mais tempo, que estamos mais velhos ainda e que aprendemos muito mais coisas.

Viver num lugar com pessoas de umas 15 nacionalidades é impressionante e enriquecedor. Trabalhar com pessoas com necessidades especiais é, por um lado, como trabalhar com quaisquer pessoas: exige paciência, experiência e coração aberto para aprender todo dia porque nenhuma situação é igual à outra. Por outro lado, tem uma coisa mágica em trabalhar com quem vê a realidade de forma totalmente diferente da nossa. Eles conseguem enxergar o que não enxergamos e carregam uma simplicidade sem tamanho. Isso, graças a Deus, ainda não deixou de ser novidade pra gente. Aprendemos todos os dias com eles.

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O Camphill é um estilo de vida em extinção. Com todos os regulamentos e exigências do governo irlandês (seguindo o modelo do Reino Unido), está cada vez mais difícil manter o caráter da instituição de núcleos familiares onde as pessoas dividem suas vidas o tempo todo, morando juntas, trabalhando juntas. Estamos em risco de desaparecer em alguns anos e estamos trabalhando para que isso não aconteça. A coisa toda é cansativa, mas é muito bonita. Morar e trabalhar no mesmo lugar exige muito de nós, mas nunca vi coisa melhor nesse mundo para as pessoas com necessidades especiais. Aqui elas têm família (quando muitos já não têm laços de sangue), ambiente de trabalho adaptado para eles, valorização e carinho.

Já como casal esse “isolamento” de tudo e de todos está nos fazendo amadurecer bastante. Como “a gente só tem a gente” (e a Bea, mas isso é outra história), o jeito é fazer acontecer tudo da melhor forma. A cada dia nos tornamos mais amigos e mais companheiros. Quando tem problema, não tem outra forma senão sentar, conversar, resolver e orar pra Deus continuar abençoando a gente. Tem sido assim e posso dizer pra quem for que casamento é uma coisa MUITO legal.

Nossa vida aqui tem sido muito simples – saímos da cidade grande pra vir morar na zona rural de uma cidade de 10.000 habitantes. Amamos morar numa fazenda. Temos o escritório com janela pra um grande gramado onde volta e meia tem lebre correndo ou as vacas fugindo do caminho do curral. Vemos o nascer do sol na janela do quarto e o por do sol da varanda (pra quem não sabe o sol aqui anda de banda; ele não cruza o céu como no Ceará). Bebemos o leite das vaquinhas daqui e na medida do possível plantamos para nos alimentar. Claro que isso não inclui a nossa pizza do Tesco e os biscoitos de chocolate do Felipe.

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Não é fácil ser imigrante, principalmente em país europeu. Pra quem pensa que é só alegria viver fora do Brasil, aconselho parar pra pensar quais são suas prioridades. Em um ano sentimos muito por termos perdido aniversários, casamentos e momentos felizes junto de parentes e amigos, mas nossos projetos de vida e prioridades nos trouxeram pra cá. Quando se é imigrante você pode esquecer toda aquela história de bater no peito e exigir seus direitos. Direitos a gente tem no Brasil; aqui nosso direito é viver bem pacificamente, engolindo sapos e tentando ficar de boa com muitas situações aparentemente injustas. Quando colocamos tudo na nossa balança o saldo é positivo. Mas não é pra todo mundo.

Em um ano deu pra viajar um bocado pra outros países e ainda conhecer um bom pedaço da Irlanda (paixão!). O fato de termos 5 semanas de férias por ano permite ter uma folguinha de vez em quando. Daí a gente morre de tirar foto e postar e o povo pensa que a gente vive viajando. Não mesmo. A gente rala muito pra ter essas semaninhas de folga.

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A comunicação com família e amigos tem acontecido principalmente por telefone e aquele aplicativozinho do ícone verde do qual não vou fazer propaganda. A gente acaba perdendo o contato com algumas pessoas que faziam parte da rotina, principalmente as do trabalho, mas… fazer o quê?

Pra fechar: estamos contentes. Procuramos nos desvincular do conceito comum de felicidade e de observar a “grama do vizinho”, daí o que acontece é uma onda de contentamento quase diária por tudo o que temos e por tudo o que Deus nos tem permitido viver. Isso não está diretamente vinculado à Irlanda, mas à sensação de estar no lugar certo, na hora certa.

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Wexford Town e seu Johnstown Castle

Tiramos um tempinho para visitar a capital do condado onde moramos – Wexford Town – e uma de suas mais famosas atrações – o Johnstown Castle.

O Condado de Wexford tem muito disso de história, construções antigas e cultura. Enquanto passeávamos ao redor do Johnstown Castle (o interior não estava aberto à visitação) percebemos o porquê da Irlanda ser set de filmagens de várias grandes produções. Os cenários daqui são di-vi-nos. O dia estava meio cinza (ops, isso é normal por aqui…), mas tiramos boas fotos de tudo.

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Johnstown Castle foi casa de duas famílias influentes de Wexford: os Esmondes e os Grogans. Hoje pertence ao Estado e é sede da Autoridade de Agropecuária e Alimentos. Há trilhas ao redor do castelo que conduzem a lagos e jardins magníficos.

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 Então seguimos no rumo de Wexford. Gente… cá entre nós: pra quem procura badalação, grandes centros urbanos, muita gente e boas compras, a Irlanda não é uma boa opção. Temos Dublin, que é grande (e ainda menor que a nossa Fortaleza), mas acredito que as outras capitais (pelo menos as que conheci) sejam pequenos centros urbanos onde o forte é mesmo andar, olhar, ouvir histórias e entrar nos pubs pra sentir a alegria irlandesa. Pra nós está SUPER de boa. Amamos tudo isso aqui. God bless!

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Wexford Town fica a 45 minutos de carro partindo de Gorey ou 2 horas de Dublin. É terra de rio, mar e barcos, gente gentil, artesanato, contruções antigas e uma ópera house com vista pra cidade inteira. Sempre que temos um tempinho vamos por lá pra andar no calçadão à beira do rio, tomar um café ou fazer compras.