Cachorros, barcos e aniversários

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À medida que o tempo vai passando a gente vai se sentindo mais “da terra”. Não que a gente perca as raízes, mas tudo vai ficando mais confortável, mais rotineiro. Tipo: ir à cidade, pagar contas, interagir com as pessoas, antes era um pouco complicado, desastrado, e agora vai ficando mais natural. A gente aos poucos passa a entender algumas palavras do “inglês” do povo local, o que é uma grande vitória. Eles aqui falam uma coisa aí que dizem ser inglês, mas pelamorde… né não, viu?! Com exceção do povo britânico, americano ou descendentes destes, a gente não entendia muita coisa no começo. Mas lembro que foi assim também quando chegamos no interior da Irlanda.

Muito e nada aconteceu desde a última vez que escrevi. NADA porque a vida aqui não é badaladíssima como nas grandes cidades. Às vezes fico impressionada como uma ilha assim sobrevive. MUITO porque tem barcos indo e vindo e, como acontece todos os anos (graças a Deus), Felipe e eu fizemos aniversário. Pois então bora falar sobre isso.

(Mais) Algumas curiosidades sobre Antígua:
1. O povo daqui é devagar. Calma, não digo que eles são preguiçosos; é só o clima que é muito quente e você vê as pessoas andando e fazendo as coisas em câmera lenta pra evitar desidratação. Eu que sou toda ligeirinha demorei a captar o ritmo da vida daqui. Agora se não quero chegar completamente suada, ando no compasso do povo antiguano.
2. Nunca vi moto aqui. Sim, tem muito carro porque (de novo por conta do clima) não dá pra andar pra todo canto. Dia desses fui atravessar a rua e o trânsito estava parado, daí me veio aquele sentimento de “cuidado com as motos”. Parei pra pensar e constatei que nunca vi moto por aqui. Em compensação tem quadriciclos everywhere.
3. Só tem 1 supermercado grande (como quase todos de Fortaleza, ou como um Tesco na Irlanda). O nome dele é Epicurean e chega quase a ser uma atração turística. Vou nem mentir que adoro ir lá por conta do ar condicionado.
4. O aeroporto daqui foi construído por uma empresa brasileira. “Googla” aí, porque eu não vou fazer propaganda dessa aí. Ah, o aeroporto é outro lugar com ar condicionado bacana pra fugir do calor caribenho (já viram que eu só penso nisso, né?!).
5. Aqui não tem cobra. É o que dizem. Tipo na Irlanda. São Patrício passou por aqui também e expulsou as bichinhas, só pode.
6. Carnaval aqui é em agosto. Não me perguntem por quê. Nem de Carnaval eu gosto.

Acho que até agora a nossa maior aventura foi a que vou contar a seguir. Vínhamos voltando de English Harbour uma noite quando vimos um carro parando para algo que cruzava a estrada. Eram filhotinhos de cachorro. Quase chorei com a cena e queria colocá-los dentro do carro na mesma hora, mas como não sou a dona da casa onde moramos, tive que primeiro consultá-la antes de fazer isso. Tudo ok – ela é associada a um daqueles grupos que resgatam cães e gatos. Voltamos lá pra pegar os bichinhos, nem sabia direito quantos eram. Encontramos dois à beira da estrada, tentando achar abrigo perto de um cano de esgoto. Nossa, que dó! Levamos os dois pra casa, uma fêmea e um macho, batizados pela Shayne de Soot (Fuligem) e Bellie, que pra gente virou Bellinha, mesmo. Vacinamos, vermifugamos e espalhamos cartazes pela cidade pra ver se alguém adotava. Ontem o Soot foi pra casa da nova família; Bellinha ainda está aqui com a gente. Digo que foi uma grande aventura porque cachorro, cês sabem, né?! Nunca é uma peça decorativa numa casa – traz alegria e tristeza, amor e ódio. Uma lindeza brincar com eles, tirar fotos e fazer vídeos. Uma tristeza acordar com a casa toda cagada e os sapatos inutilizados. Mas enfim, amor. Amamos muito os bichinhos e, apesar da saudade do Soot, continuamos aqui na nossa missão de achar um novo lar pra Bellinha (estamos exportando, viu?! Manda um inbox se quiser adotar essa pestinha!).

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Daí veio o tão esperado Boat Show. Barcos e iates do mundo todo atracaram nas três docas daqui. Foi muito interessante ver gente de todo canto, bêbados alegres, gente de bem e com histórias interessantes. Ainda escrevo um livro sobre a vida desse povo que a gente conhece nas nossas andanças. Tem o cara que há 12 anos viaja sozinho de barco pelo mundo todo, tem o cara que se aposentou por invalidez e, ao invés de ficar em casa assistindo TV foi viajar por aí, tem a tenista que na temporada vem tocar numa banda daqui…e por aí vai. Sem dúvida o melhor dos lugares não são os lugares em si, mas as pessoas que fazem os lugares. Esqueci de explicar: no Boat Show os barcos ficam abertos para que esse pessoal que lida com o aluguel deles possa ver por dentro, anunciar, fazer catálogo, essas coisas…

Aí fizemos aniversário – primeiro o Felipe, depois eu. Gente, aniversário fora de casa, longe dos amadinhos, nunca é a mesma coisa. Mas a gente faz o que pode: tenta ser especialmente companheiro um do outro e faz o que dá prazer (come besteira, explora a ilha) e termina o dia com parabéns e bolo, ainda que só com a Shayne pra acompanhar a gente.

Daí tem o Natal chegando e nem sinal dos órgão públicos e praças se enfeitarem pra ocasião. O máximo que vimos foi essa árvore de Natal no aeroporto. Uhu.

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Só que da semana passada pra cá o próprio povo começou a enfeitar as casas, e quando falo de enfeitar é ENFEITAR. Pasmem comigo:

Por enquanto é só. Foram quase dois meses em alguns parágrafos. Continuamos loucos, unidos e felizes. “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Filipenses 4:12,13)

 

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O Caribe e a grama do vizinho

Oi, gente!

No último dia 25 completamos um mês aqui em Antigua, então já dá pra dizer que estamos melhor adaptados a tudo e todos. O clima melhorou – está chovendo mais e esfriou um pouco (até a temperatura do mar, antes morna, ficou mais fria, mas não menos agradável).

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Estamos trabalhando com property management (não sei o termo correto em português; traduzindo ao pé da letra ficou estranho…). Envolve aluguel de casa pro verão, incluindo site, AirBnB, telefonemas e emails, monitorar limpeza, jardinagem, piscina, compras, entre outras coisas que vão aparecendo. Com isso a gente entra no esquema de hospitalidade da ilha para a alta estação.

A alta estação aqui, que não é nem verão, é quando os navios/iates/barcos atracam na ilha para regatas e outros eventos. Dizem que as pessoas mais ricas do mundo trazem suas embarcações pra esta região a partir de novembro para curtir o mar e as festas aqui. Então a ilha sobrevive basicamente disso – dos meses de alta estação.

Nosso trabalho não ocupa todo o nosso tempo, então temos espaço pra explorar a ilha, conhecer pessoas e curtir a praia no fim do dia. A ilha não é muito grande, nem muito urbanizada. Não tem um shopping center ou um só lugar onde você possa encontrar de tudo. Quer comprar uma lâmpada? Tem que ir num certo lugar. Cadernos? Do outro lado da cidade. E assim vai… Mas é divertido ver a forma como cada país se organiza (ou se desorganiza) e como as pessoas lidam com isso.

Estamos bem, felizes e saudáveis. Dia desses levei uma picada de escorpião e, por ignorância, pensei que ia morrer. Felipe também pensou. Eu mal conseguia andar (foi no pé, esse trem) e ele gritava repetidamente “bora, Fabiana!” pra gente ir ao médico. Deu tanta chinelada no bicho que mais parecia um escorpião de papel. Enfim, fomos ao médico só pra passar a vergonha de, logo na porta, ele nos dizer que é que nem uma picada de abelha. Ok. Já conhecemos pessoas, fizemos amizades que nos renderam convites para lugares onde nunca imaginaríamos (nem arcaríamo$$$) ir. Veio o Halloween e a gente morreu de rir junto com o povo que trabalha em iates, tudo num bar holandês da marina daqui. Estrangeiro que veio e decidiu ficar é algo que não falta por aqui.

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As pessoas têm nos perguntado como fazemos pra viajar, pra conhecer lugares bonitos, pra ter “essa vida”… Gente, sinceramente não sei dar dicas de como viver uma vida assim (for whatever that means). Eu falo e as pessoas pensam que tou brincando ou diminuindo a nossa experiência, mas vida é vida em qualquer canto. Primeiro porque a gente gosta, sim, de viajar, mas o lance é que na nossa cabeça não existe muita fronteira. Não estamos gastando nosso dinheiro em viagens; estamos ganhando dinheiro nos lugares pra onde viajamos. Foi um exercício de desprendimento imenso quando deixamos o Brasil e tivemos que vender tudo, nos despedir das pessoas que amamos, da terra que conhecemos. Agora ficou um pouco mais fácil porque nossa vida (material) cabe em algumas malas. Segundo porque, quando você passa da fase de turista e adquire uma certa rotina, vira vida normal. Foi assim na Irlanda; é assim no Caribe.

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Não incitamos ninguém a “largar tudo e viajar” porque não foi isso que a gente fez. Aconteceu e Deus tem nos dado bases seguras, respaldo e discernimento pra dar cada passo. Então, por mais que “a grama do vizinho pareça mais verde”, queria lembrá-los que 1. estamos trabalhando (com certa folga, sim, mas talvez não ganhando tanto dinheiro quanto você que rala mais!); 2. aqui é um paraíso, mas com seus problemas (calor, mosquitos, subdesenvolvimento); 3. o desprendimento é um exercício diário e a saudade dos amados não faz parte dele (pra ela não tem cura); 4. quer “essa vida”? Começa procurando oportunidades de trabalho fora da caixa do país. Vai que aparece alguma coisa legal e você tem a oportunidade de passar um tempo fora! Uma coisa eu digo sem gaguejar: estamos amadurecendo MUITO.

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Obs.: Escrito e “formatado” num iPad. Por isso, perdão pela falta de formatação. Aceito aulas grátis.

Primeiras impressões de Antígua

Já estamos há mais de uma semana em Antígua, então acho que já dá pra escrever alguma coisa pelo menos pra dar notícia. Um ótimo começo seria dizer que não, Joaquin não passa por aqui (pelo menos por enquanto). Estamos a salvo e deste lado da ilha é difícil a coisa ficar feia quando tem furacão.

Tivemos a grande “sorte” de, na nossa primeira semana, pegar o dia mais quente já registrado na história de Antígua (uhu!). E não me venha dizer que Fortaleza também é quente porque quentura agora eu sei o que é. Nossa…pedi pra Jesus mandar chuva ou me levar porque estava quase desmaiando. Sério. Mas como pior do que estava não poderia ficar, esfriou e estamos com agradáveis 30 graus todo dia.

(Desculpa, só falei do clima até agora, mas é a única coisa que me prende a atenção o tempo todo aqui…)

Pois bem, Antígua é uma ilha com 80.000 habitantes. Acho que até o Conjunto Ceará tem mais gente que isso. A gente está no sul da ilha, num lugar chamado English Harbour. As pessoas aqui são muito amigáveis e hospitaleiras; dá sempre pra ver gente na rua, reunida, rindo e dançando. Bem Caribe. A língua oficial é o inglês, mas no rádio e na TV tem programas em espanhol e francês também (línguas das ilhas vizinhas). A moeda é o dólar caribenho; 1 dólar americano são 2,60 dólares caribenhos. A maioria da população é de negros, descendentes daqueles trazidos da África na época do colonialismo. Tem uma minoria branca e, aparentemente, não muita miscigenação, partindo do fato de que eu (café com leite) sou um bicho exótico aqui também; o povo me olha meio curioso e pergunta de onde sou. Nem sinal de outros brasileiros na ilha; o cara da polícia falou que havia um há muitos anos, mas que foi embora. A economia é baseada principalmente no turismo. Tem manga e pitomba (eeeeê). Não é uma ilha plana – tem muitas colinas e vistas maravilhosas lá de cima.

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É interessante ver a maneira como as pessoas lidam com a “escassez” aqui. Como é uma ilha pequena, os recursos são escassos. Quase todas as casas juntam água da chuva para consumo; a água do chuveiro e das pias vai para as plantas. Tudo é muito eco friendly e reaproveitado na medida do possível (como deveria ser no planeta todo, mas aqui acontece pela necessidade).

As praias… oh, céus… é aquele esquema mesmo que vocês devem imaginar sobre o Caribe: mar azulzinho e sem ondas, água morna, siris e peixes brincando por perto, barcos/lanchas/iates indo e vindo, reggae tocando e uma galera dançando. A Pigeon Beach é nosso destino certo quase todo fim de tarde.

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Semana passada fomos à capital (St. Johns) e…bem, qualquer um de vocês que já tenha ido ao Centro de Fortaleza acharia bem similar. É aquele amontoado de gente, loja, camelô, fórum, correios, igreja e hospital, tudo junto. O Felipe ficou feliz em encontrar um Burger King pra matar a vontade de junk food. Isso porque a maioria dos doces e outras guloseimas é bem cara. Comer vegetais, carne e frutas sai bem mais barato.

Por enquanto acho que é isso. Comecei a pesquisar sobre a história do lugar, mas ainda está muito recente pra eu falar qualquer coisa mais aprofundada. Estamos bem, felizes e curtindo o que Antígua tem pra oferecer. Abraço procês.

Um big F5 pra vocês 

AVISO: Esse post tá bem grande. Mas foi feito com carinho e paciência pra atualizar vocês. A qualidade das fotos não está boa porque tirei do Instagram (estamos sem computador e nossas pictures estão todas no HD externo). Desculpem se o post não sair bem bonitinho, alinhado e formatado. Sou meio broca (ops, cearês!) pra essas coisas no iPad.

Verdade de verdade é que, como a vida tem sido muito corrida, fico com preguiça de escrever aqui. Mais verdade ainda é que nós passamos por alguns momentos difíceis e, tentando resolver tudo, o blog ficou meio de lado. Verdade verdadeiríssima é que eu tenho A-BU-SO* de blogs de casais que resolveram largar tudo para viajar ao redor do mundo, então não queria que este se tornasse um. Qualquer semelhança é mera coincidência; é o que estamos vivendo e este blog serve para dar notícias para vocês, amadinhos. (*ABUSO: s.m. Gíria cearense que expressa aversão.)

Vamos começar com coisas boas, né?! Depois do último post recebemos visitas amadíssimas. Primeiro o Tim (meu amigo-padrinhodecasamento alemão) e a Lisa (digníssima dele) vieram nos ver. Rodamos pela Irlanda e foi SUPER divertido. Acabamos nossas férias num hotel em Galway onde estava tendo uma conferência de idosos. Daí chegamos à conclusão de que idosos somos nós; aquele povo ali não parava um minuto: desde hidroginástica às seis da manhã até dança às duas da manhã seguinte. O Felipe e o Tim voluntariaram pra ser go-go boys dançarinos e fizeram sucesso no meio das senhorinhas.


Depois disso o Daniel (nosso gordinho) veio cumprir a promessa dele de visitar nós três (Bea, Felipe e eu). Foi muito bom tê-lo por perto. Ele pôde viver nossa realidade irlandesa de sair num dia de sol e ter chuva, sol, chuva, granizo, chuva, sol, chuva e sol num intervalo de duas horas de caminhada por Glendalough. Lovely Irish weather! Fora isso a gente se mandou pra Dublin e curtiu a noite com o Napô e o Henrique. Decidimos conhecer a tal da silent disco e era muito engraçado ver o povo cantando e dançando musicas diferentes ao mesmo tempo, sem se incomodar uns com os outros.


  

Em junho fomos ao Brasil porque a minha Paty irmãmaislindadomundo ia casar com o Pedro cunhadomaislindodomundo. Ela preparou tudo cuidadosamente e acabou que foi a cerimônia mais interessante que já vi. Tudo maravilhoso! Tivemos oportunidade de rever família e amigos e abastecer o coração pra voltar pra Europa.


  

Então voltamos e aqui começo a explicar a reviravolta de sair da Irlanda pra morar um tempo em Antígua e Barbuda.

Desde a última vez que demos notícias aqui, a instituição onde trabalhamos começou a passar por profundas mudanças. O Camphill como um todo está tendo que se institucionalizar, o que significa muitas vezes sair do estilo comunidade hippie, passar a obedecer regulamentos e sofrer constantes fiscalizações do Governo. Nada disso era novidade pra gente; quando deixamos o Brasil para ir para a Irlanda já sabíamos que sofreríamos mudanças. No entanto, primeiro sofremos um sério problema de ingerência; depois, enquanto os gerentes da instituição estavam preocupados com questões mais burocráticas, nós (todos os co-workers) nos sentimos sem suporte para auxiliar os residentes no dia a dia. Muitos deles estão enfrentando problemas por causa da idade, o que tornou difícil para nós (coordenadores) dar suporte aos voluntários sem termos a devida orientação. Resumindo: estava MUITO pesado carregar essa responsabilidade. Superficialmente, este foi o motivo de termos saído. Há muitos outros detalhes que preferimos não compartilhar.

Voltamos do Brasil e conversamos com várias pessoas, tentando resolver uma infinidade de problemas que nós (todos) estávamos enfrentando. Não deu certo. Algumas pessoas começaram a sair da instituição e foi quando ficou claro que também não poderíamos ficar por muito tempo. Anunciamos nosso interesse em sair e começamos a procurar outras oportunidades. Não pensamos em voltar pro Brasil porque decidimos mesmo ter esse gap de três anos fora e porque… cês sabem… a coisa aí não tá muito legal.

Entramos em contato com alguns amigos e, quando voltamos da nossa viagem de dois anos de casados, tinha um email de uma amiga nos chamando para passar uma temporada em Antígua e ajudar no negócios de uma amiga dela. (Isso: a amiga da amiga. Amizade é melhor que dinheiro, sem dúvida!). Nos cercamos de toda segurança possível (passagens, seguro, contato com a amiga da amiga, informações sobre o lugar etc.) e viemos.

Não foi fácil deixar os nossos velhinhos e a princípio a comunidade não ficou muito satisfeita com a nossa saída (ÓBVIO! Vão demorar pra achar quem abrace o tanto de tarefas de que dávamos conta). Mas depois ficou mais de boa e fomos vendo que fizemos bons amigos ali; por isso doeu partir. E tem a Bea, né?! Mas não vou nem entrar nesse mérito.

Chegamos e estamos nos adaptando (à hora, ao calor, ao local, às pessoas). Só são dois dias. Ainda não dá pra falar muita coisa. Mas daqui uns dias tento postar de novo falando de Antígua. Mas está tudo bem (viu, mãe?!) e estamos felizes. Xêro pra vocês e até logo.

“Mande notícias do mundo de lá…”

Estamos às vésperas de receber amigos aqui, tirar uns dias de folga, então decidi escrever logo o que tem acontecido por aqui antes de contar todo esse movimento.

As últimas semanas têm sido de muito trabalho (tell me something new…). Quando se cuida de gente idosa qualquer mudança pode indicar alguma coisa mais séria, então eles têm que ser mantidos sob supervisão atenciosa. No último mês tudo indica que nosso “velhinho” teve um (outro) pequeno AVC. Ele amanheceu com uns movimentos involuntários no lado esquerdo e o rosto um pouco mudado. Chamamos os médicos aqui, que observaram e medicaram; nos primeiros dias ele estava bem inquieto e impaciente com a perna que mexia sozinha. No entanto, o cérebro do ser humano é uma coisa mesmo impressionante: ele começou a apresentar umas mudanças também de comportamento. Como ele tem autismo e demência, ele geralmente ficava “ausente” e era rabugento quando a gente tentava interagir com ele. Agora parece uma nova pessoa: sorri, interage, chama pra brincar, quer atenção o tempo inteiro e pede carinho. Uma grande lição pra gente saber que até quando acontece uma coisa ruim dá pra tirar algo de bom. Estamos ainda mais apaixonados por ele.

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No mais, a primavera chegou! As folhas resolveram brotar e logo vieram as flores. Está tudo colorido em Duffcarrig e na Irlanda. Já dá pra colocar umas roupas mais leves, sentar na grama e tomar sol. Parece até que todo mundo fica mais feliz quando o “calor” finalmente chega. A gente aproveita pra passear mais. 🙂

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Muita gente = muitas celebrações. Aniversários ou festas de despedida. Isso é outra coisa que a gente aprende aqui: a conhecer gente nova, recém chegada; e a dizer tchau quando é tempo de eles voltarem pra casa. No começo isso era bem difícil, especialmente pra mim, mas com o tempo a gente vai percebendo que é só a vida que segue e que a amizade continua.

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Cenas dos próximos capítulos: o Tim (aqueeeeele meu amigo alemão que foi padrinho no nosso casamento!) chega amanhã pra passar uma semana com a gente. Depois vem o Daniel (nosso gordinho do Brasil). Aí mando notícias. Até lá, abração a todos e fiquem com Deus.

A Bea e outras histórias…

A Bea…

Falei no outro post que a Bea era outro assunto, né?! Então aqui vai.

A Bea acompanhava meu blog quando vim pra Irlanda pela primeira vez. A gente nem se conhecia e só Deus sabia o que a gente ainda ia viver. Daí um tempo depois que eu já tinha voltado ao Brasil ela me mandou uma mensagem no Facebook perguntando se eu queria ser amiga dela. Na verdade ela criou coragem pra fazer isso porque não foi uma coisa normal nem pra mim nem pra ela. Mas algo me dizia que esse negócio ia dar certo. Resumo da história: esta pessoa é minha madrinha de casamento.

Quando Felipe e eu finalmente decidimos vender tudo e vir pra cá, a Bea já estava praticamente de passagem comprada para vir também; enquanto nós viríamos em março pra Duffcarrig, ela só viria em setembro pra Ballymoney (comunidade vizinha à nossa). Pra quem mora longe e isolado a companhia de uma amiga-madrinha que nem essa é coisa enviada por Deus. A gente ficou contando os dias pra Bea chegar. Daí ela chegou. E a aventura que já estava legal ficou melhor ainda.

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As coisas não eram bem como ela imaginava lá na outra comunidade, então ela decidiu se mudar pra cá. A verdade é que ela não aguentou ficar longe da gente nem 1km (essa é a distância entre as duas comunidades). E cá estamos nós: uma dupla de três, um trio de dois, já que nós dois somos um e tem a Bea… enfim, não dá pra explicar e nem sei como era a vida antes dela aqui. Na hora que o bicho pega a gente corre um pra casa do outro e dá tudo certo. Deus, essa tal de amizade é a melhor invenção de todos os tempos!

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                                                       (A gente fingindo que é meiga)

Acaba que a Bea assumiu praticamente as mesmas responsabilidades que a gente, só que em outra casa. Obviamente pedimos o mesmo day off. Ah, day off… nunca expliquei. Aqui a gente tem uma folga oficial por semana (fale-me mais sobre Europa ostentação e vida fácil na Irlanda… nunca vi!). Sim, a gente tem mais férias que aí no Brasil e também tem os weekends off volta e meia, mas… a vida aqui é intensa, puxada, mas divertida.

O Day Off…

Falando em day off, esse povo que tem mania de viajar nunca se aquieta. Acaba que, mesmo tendo um só dia de folga, a gente revira essa Irlanda o quanto pode. Dia desses saímos pra tomar uma sopa numa cidade, comemos sobremesa em outra e, já que estávamos a 40km de outra capital, lá fomos nós rumo a Kilkenny.

Depois era só uma ida rápida a Dublin; acabamos rodando pela cidade e indo comer cachorro quente na casa do Napô e do Henrique, voltando pra casa só depois das dez. E trabalhando no dia seguinte.

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Nosso gueto aqui: Bea, Napô, Henrique e o Bruno – nossa mais recente aquisição 🙂

A Páscoa…

Daí veio a Páscoa. Gente. A Páscoa no Camphill é um episódio à parte. Eu já passei por isso na vez passada em que estive no Camphill e também no ano passado. Agora fiquei experiente e posso falar. Já estava acostumada a ouvir falar da morte e ressurreição de Cristo na igreja e ter que lidar com a mistura disso com o coelhinho da páscoa e os ovos de chocolate no resto do mundo. Aqui tem o adicional da interferência cósmica, com uma cor diferente pra cada dia da semana. Respeito a filosofia, mas é muita informação e prefiro ficar só com Jesus Cristo, mesmo. De toda forma fomos ver o amanhecer do domingo de Páscoa na praia, tivemos um café da manhã todos juntos, decoramos a casa e fizemos “caça ao ovo” pras nossas “crianças”.

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Por hoje é só. Feliz Páscoa pra todo mundo!

1 ano de Irlanda! (lembrete: isso não é um blog de viagens)

Antes de começar a escrever sobre 1 ano na Irlanda, quero primeiro deixar claro que este não é mais um daqueles blogs de CASAL QUE LARGOU TUDO PARA SE AVENTURAR PELO MUNDO. Não, não é. E sim, largamos tudo para vir para o outro lado do mundo, mas a intenção deste blog é mandar notícias para os amadinhos que ficaram no Brasil ou que se espalham por outros cantos desse mundão de meu Deus.

Pois bem. Continuemos. Nessa semana completamos 1 ano aqui na Irlanda. Parece que cada ano que passamos longe da nossa zona de conforto vale por dez. É a impressão que dá: que estamos aqui há mais tempo, que estamos mais velhos ainda e que aprendemos muito mais coisas.

Viver num lugar com pessoas de umas 15 nacionalidades é impressionante e enriquecedor. Trabalhar com pessoas com necessidades especiais é, por um lado, como trabalhar com quaisquer pessoas: exige paciência, experiência e coração aberto para aprender todo dia porque nenhuma situação é igual à outra. Por outro lado, tem uma coisa mágica em trabalhar com quem vê a realidade de forma totalmente diferente da nossa. Eles conseguem enxergar o que não enxergamos e carregam uma simplicidade sem tamanho. Isso, graças a Deus, ainda não deixou de ser novidade pra gente. Aprendemos todos os dias com eles.

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O Camphill é um estilo de vida em extinção. Com todos os regulamentos e exigências do governo irlandês (seguindo o modelo do Reino Unido), está cada vez mais difícil manter o caráter da instituição de núcleos familiares onde as pessoas dividem suas vidas o tempo todo, morando juntas, trabalhando juntas. Estamos em risco de desaparecer em alguns anos e estamos trabalhando para que isso não aconteça. A coisa toda é cansativa, mas é muito bonita. Morar e trabalhar no mesmo lugar exige muito de nós, mas nunca vi coisa melhor nesse mundo para as pessoas com necessidades especiais. Aqui elas têm família (quando muitos já não têm laços de sangue), ambiente de trabalho adaptado para eles, valorização e carinho.

Já como casal esse “isolamento” de tudo e de todos está nos fazendo amadurecer bastante. Como “a gente só tem a gente” (e a Bea, mas isso é outra história), o jeito é fazer acontecer tudo da melhor forma. A cada dia nos tornamos mais amigos e mais companheiros. Quando tem problema, não tem outra forma senão sentar, conversar, resolver e orar pra Deus continuar abençoando a gente. Tem sido assim e posso dizer pra quem for que casamento é uma coisa MUITO legal.

Nossa vida aqui tem sido muito simples – saímos da cidade grande pra vir morar na zona rural de uma cidade de 10.000 habitantes. Amamos morar numa fazenda. Temos o escritório com janela pra um grande gramado onde volta e meia tem lebre correndo ou as vacas fugindo do caminho do curral. Vemos o nascer do sol na janela do quarto e o por do sol da varanda (pra quem não sabe o sol aqui anda de banda; ele não cruza o céu como no Ceará). Bebemos o leite das vaquinhas daqui e na medida do possível plantamos para nos alimentar. Claro que isso não inclui a nossa pizza do Tesco e os biscoitos de chocolate do Felipe.

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Não é fácil ser imigrante, principalmente em país europeu. Pra quem pensa que é só alegria viver fora do Brasil, aconselho parar pra pensar quais são suas prioridades. Em um ano sentimos muito por termos perdido aniversários, casamentos e momentos felizes junto de parentes e amigos, mas nossos projetos de vida e prioridades nos trouxeram pra cá. Quando se é imigrante você pode esquecer toda aquela história de bater no peito e exigir seus direitos. Direitos a gente tem no Brasil; aqui nosso direito é viver bem pacificamente, engolindo sapos e tentando ficar de boa com muitas situações aparentemente injustas. Quando colocamos tudo na nossa balança o saldo é positivo. Mas não é pra todo mundo.

Em um ano deu pra viajar um bocado pra outros países e ainda conhecer um bom pedaço da Irlanda (paixão!). O fato de termos 5 semanas de férias por ano permite ter uma folguinha de vez em quando. Daí a gente morre de tirar foto e postar e o povo pensa que a gente vive viajando. Não mesmo. A gente rala muito pra ter essas semaninhas de folga.

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A comunicação com família e amigos tem acontecido principalmente por telefone e aquele aplicativozinho do ícone verde do qual não vou fazer propaganda. A gente acaba perdendo o contato com algumas pessoas que faziam parte da rotina, principalmente as do trabalho, mas… fazer o quê?

Pra fechar: estamos contentes. Procuramos nos desvincular do conceito comum de felicidade e de observar a “grama do vizinho”, daí o que acontece é uma onda de contentamento quase diária por tudo o que temos e por tudo o que Deus nos tem permitido viver. Isso não está diretamente vinculado à Irlanda, mas à sensação de estar no lugar certo, na hora certa.

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