1 ano de Irlanda! (lembrete: isso não é um blog de viagens)

Antes de começar a escrever sobre 1 ano na Irlanda, quero primeiro deixar claro que este não é mais um daqueles blogs de CASAL QUE LARGOU TUDO PARA SE AVENTURAR PELO MUNDO. Não, não é. E sim, largamos tudo para vir para o outro lado do mundo, mas a intenção deste blog é mandar notícias para os amadinhos que ficaram no Brasil ou que se espalham por outros cantos desse mundão de meu Deus.

Pois bem. Continuemos. Nessa semana completamos 1 ano aqui na Irlanda. Parece que cada ano que passamos longe da nossa zona de conforto vale por dez. É a impressão que dá: que estamos aqui há mais tempo, que estamos mais velhos ainda e que aprendemos muito mais coisas.

Viver num lugar com pessoas de umas 15 nacionalidades é impressionante e enriquecedor. Trabalhar com pessoas com necessidades especiais é, por um lado, como trabalhar com quaisquer pessoas: exige paciência, experiência e coração aberto para aprender todo dia porque nenhuma situação é igual à outra. Por outro lado, tem uma coisa mágica em trabalhar com quem vê a realidade de forma totalmente diferente da nossa. Eles conseguem enxergar o que não enxergamos e carregam uma simplicidade sem tamanho. Isso, graças a Deus, ainda não deixou de ser novidade pra gente. Aprendemos todos os dias com eles.

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O Camphill é um estilo de vida em extinção. Com todos os regulamentos e exigências do governo irlandês (seguindo o modelo do Reino Unido), está cada vez mais difícil manter o caráter da instituição de núcleos familiares onde as pessoas dividem suas vidas o tempo todo, morando juntas, trabalhando juntas. Estamos em risco de desaparecer em alguns anos e estamos trabalhando para que isso não aconteça. A coisa toda é cansativa, mas é muito bonita. Morar e trabalhar no mesmo lugar exige muito de nós, mas nunca vi coisa melhor nesse mundo para as pessoas com necessidades especiais. Aqui elas têm família (quando muitos já não têm laços de sangue), ambiente de trabalho adaptado para eles, valorização e carinho.

Já como casal esse “isolamento” de tudo e de todos está nos fazendo amadurecer bastante. Como “a gente só tem a gente” (e a Bea, mas isso é outra história), o jeito é fazer acontecer tudo da melhor forma. A cada dia nos tornamos mais amigos e mais companheiros. Quando tem problema, não tem outra forma senão sentar, conversar, resolver e orar pra Deus continuar abençoando a gente. Tem sido assim e posso dizer pra quem for que casamento é uma coisa MUITO legal.

Nossa vida aqui tem sido muito simples – saímos da cidade grande pra vir morar na zona rural de uma cidade de 10.000 habitantes. Amamos morar numa fazenda. Temos o escritório com janela pra um grande gramado onde volta e meia tem lebre correndo ou as vacas fugindo do caminho do curral. Vemos o nascer do sol na janela do quarto e o por do sol da varanda (pra quem não sabe o sol aqui anda de banda; ele não cruza o céu como no Ceará). Bebemos o leite das vaquinhas daqui e na medida do possível plantamos para nos alimentar. Claro que isso não inclui a nossa pizza do Tesco e os biscoitos de chocolate do Felipe.

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Não é fácil ser imigrante, principalmente em país europeu. Pra quem pensa que é só alegria viver fora do Brasil, aconselho parar pra pensar quais são suas prioridades. Em um ano sentimos muito por termos perdido aniversários, casamentos e momentos felizes junto de parentes e amigos, mas nossos projetos de vida e prioridades nos trouxeram pra cá. Quando se é imigrante você pode esquecer toda aquela história de bater no peito e exigir seus direitos. Direitos a gente tem no Brasil; aqui nosso direito é viver bem pacificamente, engolindo sapos e tentando ficar de boa com muitas situações aparentemente injustas. Quando colocamos tudo na nossa balança o saldo é positivo. Mas não é pra todo mundo.

Em um ano deu pra viajar um bocado pra outros países e ainda conhecer um bom pedaço da Irlanda (paixão!). O fato de termos 5 semanas de férias por ano permite ter uma folguinha de vez em quando. Daí a gente morre de tirar foto e postar e o povo pensa que a gente vive viajando. Não mesmo. A gente rala muito pra ter essas semaninhas de folga.

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A comunicação com família e amigos tem acontecido principalmente por telefone e aquele aplicativozinho do ícone verde do qual não vou fazer propaganda. A gente acaba perdendo o contato com algumas pessoas que faziam parte da rotina, principalmente as do trabalho, mas… fazer o quê?

Pra fechar: estamos contentes. Procuramos nos desvincular do conceito comum de felicidade e de observar a “grama do vizinho”, daí o que acontece é uma onda de contentamento quase diária por tudo o que temos e por tudo o que Deus nos tem permitido viver. Isso não está diretamente vinculado à Irlanda, mas à sensação de estar no lugar certo, na hora certa.

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