Gorey, County Wexford

A Irlanda tem 26 Condados (são como os Estados para nós brasileiros). Como já mencionei em posts anteriores, moramos no Condado de Wexford, que fica ao sul de Dublin, mais exatamente na zona rural da cidade de Gorey (que em gaélico é Guaire).

Gorey é para Dublin como o Cumbuco é para Fortaleza. As praias são disputadas no verão e as pessoas da capital têm casas por aqui (na zona um pouco afastada), mas ao mesmo tempo têm uma cidade arrumadinha, com restaurantes e hotéis. (Na verdade não é bem isso, mas foi o mais próximo que consegui pensar pra comparar com o Ceará). Ok, vou tentar explicar de outro modo: Gorey é uma cidade com praias ao seu redor, onde pessoas têm casas de veraneio; algumas delas são imensas e luxuosas, outras nem tanto, mas o que tem de monte por aqui são os tais de “caravan parks” – caravan é o que a gente chamaria de trailer, casa sobre rodas. Pois então, eles trazem suas casinhas, desacoplam e estacionam dentro dessas estruturas de condomínio. Me disseram que não é coisa pra todo mundo e, pelos carros que passam por aqui, digo que é coisa de gente que vive bem. Mas, sério: parece um condomínio de caixinhas de sapato. Como não tive a brilhante ideia de tirar foto quando estive em um, procurei esta imagem no Google pra postar aqui e ver se vocês concordam comigo.

Passado este “momento-choque-cultural” (sério que é legal passar férias nessas caixinhas???) prossigo com nosso post sobre Gorey.

Eu AMO Gorey. Acho que tem o tamanho certo, as lojas certas, cafés deliciosos, pubs bem legais, até um shopping center e um Tesco Extra (supermercado imenso onde a gente encontra de tudo). São menos de 10.000 habitantes e só tem engarrafamento quando um cortejo de velório resolve invadir a avenida principal.

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Esta é a nossa Prefeitura:

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Quando precisamos resolver alguma coisa ou pelo menos ver mais movimento e gente diferente, damos um pulinho em Gorey. É lá que tomo um dos meus cafés preferidos no mundo (calma, Airton, que a Confeitaria Sublime ainda está em primeiro lugar no meu coração!) – na Tea House. Quando deixei a Irlanda em 2011, escrevi num guardanapo o quanto gostava daquele lugar. Eles emolduraram e, quem diria, ainda está lá. 🙂

 

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No mais, completamos 1 mês de Irlanda nesta semana. Acho que já está passando o tal do período de adaptação. Estamos bem, felizes, trabalhando muito e vivendo o que o nosso coração diz ser o melhor de Deus pras nossas vidas neste momento. Estamos longe da família e dos amigos, mas Deus tem nos dados amigos que são como irmãos por aqui – pessoas valiosas que se importam com a gente de verdade.

Então… por enquanto é só.

Vida normal

Alguns amigos perguntam como é viver na Europa ou até fazem piada como se viver aqui fosse um luxo só. Pois bem, este post vai especialmente pra vocês.

Acho que por já termos vivido aqui antes, muitas coisas já são normais. Mas lembro do meu deslumbramento da vez passada: os prédios antigos, as paisagens lindas, tudo tão diferente – o modo como a cidade se organiza, o lado de dirigir e as pessoas. Nesta segunda vinda à Irlanda, muito disso já não é novo e, ainda que fosse, em alguns meses teríamos o que temos: uma vida normal. Nada de luxo, nada de viagens o tempo todo. A vida aqui é de muito trabalho.

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St. Kevin’s House – nosso lar!

Moramos no interior – são 88 km de Dublin até Gorey. Nas primeiras semanas foi difícil desacelerar daquele ritmo de cidade grande e se acostumar com a vida no campo. Mas aos poucos foi ficando tudo muito bom: acordar com os pássaros cantando, ver a primavera chegando aos poucos, comer comida preparada com o que se planta aqui, ter contato com animais, poder ver o nascer do sol na praia… isso tudo nos traz qualidade de vida.

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Por outro lado, não viemos aqui pra relaxar. Neste começo tem muito trabalho a ser feito: ganhar a confiança dos residentes, coordenar os co-workers da casa, administrar a casa inteira (creiam, é e-nor-me e cheia de pormenores como saídas de emergência, itens de segurança etc.), estudar todas as políticas DA instituição e as políticas nacionais e internacionais PARA a instituição, além de fazer um curso que nos dá uma noção de como tudo começou e evoluiu até aqui (falo do curso já, já). Vida mole? Relaxante? Hum… não por aqui.

Pois bem, frequentamos aulas de um curso chamado Foundations of Camphill. Ele nos dá noções de quem foram os fundadores da instituição, em que doutrinas e filosofias se basearam, no que acreditam, além de nos ensinarem a lidar apropriadamente com pessoas com necessidades especiais. Além de conhecermos pessoas de outras comunidades, ir para o curso nos faz viajar por entre as paisagens irlandesas que, cá entre nós, são MUITO lindas. São duas horas de viagem de Duffcarrig (0nde moramos) pra Ballytobin (onde acontece o curso). Não registrei nada do curso nem do lugar em fotos, mas prometo fazê-lo no próximo mês e postar aqui.

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Falei no post anterior que ia falar sobre a Antroposofia (doutrina na qual é baseada a instituição). Não posso me aprofundar, pois não sou especialista, mas pra quem nunca ouviu falar é uma viagem. Mistura cristianismo, astrologia, espiritismo, agricultura biodinâmica e euritmia. Particularmente gosto muito da parte que fala sobre nossas conexões com a natureza (sempre tive uma veia meio hippie natureba), mas não assimilo muito quando eles falam dos astros e das minhas vidas passadas. Mas gosto muito de ouvir tudo, de aprender, de aplicar de maneira condizente com meus princípios. Enfim… google it se quiser saber mais.

Aqui no Camphill, durante a semana todos trabalham em seus workshops (hum… outro assunto pra uma postagem). No final de semana fazemos outras atividades juntos. Além disso temos um day-off (dia de folga). Felipe e eu gostamos de conhecer as cidades ao redor ou passear na praia, subir a montanha. Quando rolar alguma coisa mais interessante conto aqui.

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As fotos são de um day-off que fomos à praia aqui perto (atentem para os trajes de praia daqui) e a Tess, cachorra da comunidade de Ballymoney (aqueeeeela onde voluntariei) nos reconheceu e quis se juntar a nós na caminhada.

Por hoje é só.

Camphill Communities

Prometi falar sobre o Camphill, então aqui vai.

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Descobri o projeto através de dois amigos meus – o David e a Marilia, que vieram pra cá meses antes de mim em 2010. Um cara chamado Karl König, no século passado, viu que as pessoas com necessidades especiais tinham muito mais a oferecer e que mereciam muito mais do que lhes era dedicado. Foi também uma percepção de que elas não deveriam ser trabalho, mas mereciam ser incluídas num contexto social, e daí veio a ideia de vida em comunidade. Tudo baseado numa doutrina chamada Antroposofia. Depois falo dela, também.

Aqui o voluntariado funciona num sistema de parceria um-um, ou seja, cada voluntário vem pra acompanhar um residente, geralmente por um ano. Durante este ano eles são companheiros de workshop, no convívio em casa e nas atividades fora da comunidade (passeios, médicos, visitas etc.). Foi isso que Felipe e eu viemos fazer em 2010/2011. Com esta experiência e pela necessidade da comunidade fomos convidados a ser coordenadores desta vez, ou seja, encabeçar uma das casas, dando suporte aos residentes e aos voluntários que vêm pra cá. A proposta é ficarmos pelos próximos 3 anos. Daí pra frente… quem sabe?

Quanto à comunidade, seu nome é Duffcarrig. Fica em Gorey, Condado de Wexford, a pouco mais de uma hora de Dublin (de carro). A cidade é linda e pequena, mas tem tudo o que se precisa encontrar (depois faço um post sobre Gorey). Duffcarrig fica a pouco mais de 6km de Gorey e é uma fazenda bem pertinho da praia (uns 5 minutos a pé). Fica também bem perto da comunidade na qual voluntariei – Ballymoney. Fiquei feliz por ter amigos tão perto.

Os residentes daqui em sua maioria têm necessidades especiais relacionadas a dificuldades de aprendizado, como autismo, síndrome de down ou alguma síndrome decorrente de paralisia cerebral. São 7 casas que contêm em média 4 residentes e seus respectivos co-workers (voluntários), encabeçados por 1 ou 2 coordenadores (o normal é serem casais encabeçando as casas, chamados de “house parents” ou “house coordinators”). Estes somos nós. Além disso há pessoas empregadas pela comunidade para certos cuidados mais especiais, atividades administrativas, terapias etc.

Quanto aos voluntários, bem… eles são dos mais diversos lugares do mundo. Em nossa casa temos um brasileiro e duas coreanas, mas no resto da comunidade você encontra gente da Itália, Bielorrússia, Filipinas, Alemanha, Espanha, Estonia, Irlanda (uau!) entre outros.

Acho que isso é tudo. Se alguém quiser mais informações sobre as comunidades daqui, pode acessar www.camphill.ie ou ainda www.camphill.net para os do resto do mundo.

Mãos à obra

Já que chegamos, então, melhor trabalhar. Tivemos uns diazinhos para descansar e situar a mente no tempo e o corpo no clima, mas como o coordenador desta casa já estava se retirando, tivemos que tomar as rédeas e começar a cuidar de tudo.

O clima melhorou (leia-se “esquentou”) nos últimos dias. Parece que a primavera está mesmo chegando. Já dá pra ver que na ponta dos galhos tem uns bulbos verdes, prontos para desabrochar. Fora as flores que começam a brotar em todo canto. Muito lindo ver os narcisos por toda parte.

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Aqui temos 4 “villagers” ou “residents”. É assim que chamamos as pessoas com necessidades especiais. São duas senhoras idosas, um senhor idoso e um homem em seus 40 e poucos. Não podemos falar muito sobre suas identidades, mas posso dizer logo de cara que não é fácil ser responsável pelas vidas deles. Respondemos por seu bem-estar e saúde e isso requer muita dedicação. Ninguém falou que seria fácil, né?!

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No nosso dia de folga, fomos a Dublin pra ver o Napô e o Henrique e comprar umas coisinhas. Eles são uns amigos nossos que já estão aqui há quase um ano, estudando e trabalhando.

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Pois bem, por enquanto é só.

Ah, sobre o Camphill! Prometo que no próximo post falo só sobre isso (a quem possa interessar).

Irlanda – enfim, chegamos!

Depois de muita conversa e alguns ajustes, entre nós e a Comunidade de Camphill para a qual viríamos, fechamos a data de 23 de março para nossa partida. Aí foi correr pra avisar os chefes, por as coisas à venda (tudo!) entregar o apartamento, dar um xêro nos amigos e… VIR!

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A viagem foi um tanto quanto conturbada. Eram duas conexões até chegarmos em Dublin – paramos em Lisboa e Londres. Quando chegamos no aeroporto de Lisboa, soubemos que nosso voo seguinte atrasaria 2 horas, o que nos deixaria somente com 1 hora para fazer a conexão em Londres. “Aaaaaaaaaah, uma hora inteirinha pra isso”, você diria. Amadinho, o aeroporto era Heathrow, uma coisa gigantesca. Resultado: foi uma maratona com obstáculos passar por 2 balcões de imigração/identificação + 3 quilômetros de corrida (certamente não  foi isso, mas pra mim pareceu isso ou mais!). No fim tudo deu certo e voamos pra Dublin. Como se não bastassem as emoções, nosso voo demorou meia hora pra pousar por conta do mau tempo.

Mas… chegamos. Um dos coordenadores de nosso Camphill já estava esperando. E assim começa nossa história na Irlanda.

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